
Homenagem da ABRAF ao compositor e instrumentista carioca Alfredo da Rocha
Vianna Filho, o Pixinguinha.
Um dos maiores gênios da música popular brasileira, nasceu em 23 de abril de
1897, data que há dois anos motivou a criação do Dia Nacional do Choro. Com um
trabalho reconhecido internacionalmente, Pixinguinha merecia ter sido mais
homenageado em vida.
Autor de Carinhoso, Um a zero, Sofres porque queres e Tapa buraco, Pixinguinha é
considerado o pai da música brasileira. O músico não era somente um flautista e
saxofonista virtuoso, era também um compositor genial, maestro e arranjador.
Começou a compor os primeiros choros, valsas e polcas na década de 10, formando
o Grupo do Pixinguinha, que mais tarde tornou-se o prestigiado Os Oito Batutas.
Estudiosos da MPB afirmam que Vianna Júnior criou o que hoje são as bases da
música brasileira. Seu maior legado foi aprimorar o incipiente gênero surgido
das composições de Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, que no fim do século 19
deram os acordes do Choro, misturando ritmos africanos a estilos europeus, como
o schottisch, a valsa, o minueto e, especialmente, a polca.
Altamiro Carrilho fala sobre Pixinguinha e o choro
Com 60 anos de carreira, o flautista Altamiro Carrilho teve o privilégio de
conviver com os músicos que ajudaram a definir o chorinho como um estilo
genuinamente brasileiro. Pixinguinha, que ele conheceu pessoalmente na década de
40, foi uma dessas importantes figuras do cenário típico da Música Popular
Brasileira que influenciou o músico.
Em entrevista exclusiva ao professor Raul Costa d'Ávila, Carrilho fala como
conheceu Pixinguinha e demonstra todo o seu amor pelo choro, que segundo ele,
apesar dos altos e baixos, nunca vai morrer.
Raul - Na época em que iniciou sua carreira no Rio de Janeiro,
o choro vivia uma fase áurea. Como foi seu primeiro contato com
Pixinguinha, que já era um artista consagrado?
Altamiro Carrilho - O contato com ele foi casual, muito feliz
e bonito. Convidado por um amigo comum, o Donga, assisti a uma célebre
festa de aniversário de Pixinguinha, na década de 40, entre os anos
de 1946 e 1948, não lembro direito. Os músicos que iam para lá eram
da melhor categoria. Bandoneonistas, flautistas, cantores, gente
de rádio, todo mundo. Era uma grande festa, porque ele morava em
uma grande casa, com quintal. Então numa dessas eu fui como convidado
do Donga. Cheguei lá e encontrei o Nelson Miranda, o Luperce Miranda,
uma turma enorme e qual foi a minha surpresa: um dos meus ídolos
estava lá. Deles todos o que eu mais admirava era Benedito Lacerda,
sem menosprezar ninguém. Ele foi um criador de um estilo novo, uma
maneira nova de tocar, tinha um swing leve, alegre, sutil, com balanço
rítmico impressionante, isso fazia a diferença. O próprio Pixinguinha
sabia disso, tanto é que passou a tocar saxofone, nem pegou mais
na flauta, e formou aquela dupla famosa com ele. Agora, Pixinguinha
é aquele monstro sagrado que compôs uma variedade de choros fantásticos.
Acho que nenhum autor fez tantos estilos dentro de um gênero de
música, tanta coisa diferente, do Carinhoso a Gargalhada, ele fez
tudo que tinha direito.
Raul - O que mais te impressionava quando ouvias ele tocar
flauta?
AC - Eu nunca ouvi Pixinguinha tocar. Ele parou em 1943 e
gravou muito pouco. Era muito difícil ouvi-lo até no rádio. Quando
a gente conseguia ouvir uma gravação no rádio - uma coisa tão difícil
de acontecer - a gente até pedia para ouvir de novo.
Raul - É unânime a opinião de que Pixinguinha era uma homem
generoso, humilde e muito simpático. Você que conviveu com ele,
pode comentar, um pouco, sobre o lado humano do músico?
AC - Foi um homem muito bom, justo. Aquele cara que é justo
e muito injustiçado, exatamente por ser assim. Ele também deveria
receber compreensão geral, apoio geral, merecia receber homenagens
em vida. Ao contrário do que muita gente pensa, ele não era bobo,
ingênuo, ele era muito inteligente. O Almirante (apresentador e
produtor de programas de rádio na Tupi e diretor do Bando dos Tangarás),
dizia que Pixinguinha era uma águia. No sentido de ver a coisa de
longe. Ele pressentia, tinha uma premonição, sabia as coisas que
iriam acontecer e procurava sair, ficar de lado e não interferir.
Dentro daquela simplicidade dele ele era muito perspicaz, muito
inteligente.
Raul - Na história da MPB, mais particularmente do choro,
pode-se dizer que Pixinguinha foi um divisor de águas, isto é o
Choro antes e depois dele. Você concorda com esse pensamento? O
que mais lhe chama a atenção na estética musical concebida por Pixinguinha?
AC - Não concordo totalmente. Ele deu uma contribuição valiosíssima.
Porque nós tivemos compositores muito bons de choro. Tivemos Henrique
Alves de Mesquita, Nazareth, Chiquinha Gonzaga. Acho que ele foi
um dos melhores compositores de choro. Eu, particularmente, não
gosto de dizer fulano é o rei, o maior do mundo. Cada um no seu
estilo é bom. Eu estou falando por mim o que eu sinto. Na obra de
Pixinguinha você procura, como eu disse há pouco, de Carinhoso a
Gargalhada. Carinhoso como facilidade e Gargalhada como dificuldade.
Denota que há um leque, uma abertura de estilos. Um choro tem uma
característica, um segundo tem outra e assim por diante. Essa facilidade
de trabalhar todos esses campos simultaneamente, tipo Um a zero,
mostrando toda a versatilidade, toda a técnica. Por exemplo, ele
compôs uma música como Carinhoso com poucas notinhas, harmonia andando
e a melodia permanecendo uma pequena repercussão de frases e fez
uma coisa monumental. Daí ele faz o Ingênuo, que já é um pouco mais
malicioso, tem umas modulações imprevisíveis. Compôs Os oito batutas,
com aqueles intervalos difíceis para flauta, um Si agudíssimo. Quer
dizer que não é qualquer flautista que pode tocar a música de Pixinguinha.
Isso é a versatilidade dele. Daí a se dizer que ele foi o máximo,
não é assim. Não podemos esquecer de um Porfílio Costa, de um Caximbinho.
São tantos que eu ficaria uma noite inteira falando. O gaúcho Rubens
Leal Brito, por exemplo, tocava um piano como ninguém. Agora pouca
gente o conhece. Ele compôs aquele choro Modulando, que passa por
toda a escala musical. Todos os tons que você possa imaginar, a
melodia passa por eles sem chocar. De uma maneira brilhante.